Pessoas ao meio.
Minha vida é cheia de pessoas ao meio. O que me leva a concluir que devo ser também, e assim vivo rasurada. É como um vaso com terra e sem flores, que mesmo assim insisto em encharcar d’água. É tudo um borrão cor de nada. Eu preferia o nublado, cor que vestia seus olhos, mas percebe que até terra apodrece? Que até a terra morre?!
Pra você que ainda não passou.
Não se cura um amor com outro amor, isso não fui eu quem disse primeiro, nem quem dirá por último. Meu pé de pimenta está brotando novamente – é sinal de que a vida nos volta, só você precisa também intuir. Roxo é a cor da cura, mas meu coração continua rubro e o teu surdo pelas notas de tuas músicas. A mágoa nos foi mútua e o que escrevo aqui não é provocação, é desabafo pedindo perdão. Perdão do que fomos à presença e no silencio de mãos dadas, bocas caladas e gemidos travessos – sem versos, reversos com medos. Eu aqui te procuro por te ver fugindo também como eu, mas sem querer colocar palavras em tua boca como sempre fiz, eu só estou assumindo os sentimentos meus. E, de todo mal que te causei, de todo mal que me causou igual, pior, o mesmo, eu não te peço de volta, porque as coisas não voltam. A roda gira, e o adivinha continua. Tudo continua. O mundo pode ser pequeno, o mundo vai continuar a ficar menor. Essa nossa história não se pontua, ela não parou pelas tristezas, pela falta de respeito e pela indiferença que não ouve. Pelo contrário, os caminhos diversos continuam sendo paralelos, e no fim tudo se limita a um mesmo ponto – é aí que te encontro de novo, porque um grande amor, não se cura com outro amor, nem que este seja também um amor maior.
Meus braços magros e minhas mãos vazias não tem mais forças pra arrancar você desse meu peito alagado.
Preciso aprender amar mais a mim que a você, mas isso é como ter que aprender a rezar e eu não tenho nem um deus pra acreditar. Então eu não sei mais o que fazer.
Ontem.
Meu pé de pimenta adoeceu e morreu. Caio F. escreveu sobre a avenca se partindo, eu sobre o óbito de meu pé de pimenta que agüei, a chuva também, mas você se foi e ele não agüentou o baque das pragas e se enfiou de vez na terra. Ontem cortei no talo e chorei.
O lixeiro passará amanhã cedo.
Estou arrasada, sozinha, meus cigarros acabaram e ainda tenho que colocar o lixo pra fora.
Alguns como o amor.
Cansei de ser molécula. Eu perdi 8 quilos quando ele me deixou. Dá pra ter idéia que eu perdi mais ainda o apetite pra vida? Mantive o porta-retrato cheio de promessas amarradas ao dedo, mas joguei fora a escova de dente dele que ficava ao lado da minha. Tudo bem que os ossos se recuperam, mas o que sangra recupera-se desigual, os aromas são outros e eu disse isso a ele. Disse também que cansei – tantos pleonasmos nossos pra que finalidade? De também querer dividir. Já não bastou a tentativa das escovas à distância? Dividir foi por acaso, por momento. Talvez.
Não tenho mais pressa pra viver. A pressa que tinha era por achar que morreria cedo. Hoje tanto faz, um dia a mais, outros menos. Eu envelheço com rapidez, por isso pensava que morreria antes de amanhecer. É minha alma que têm rugas. Não é desânimo! Gosto de poesia e tristeza me faz parte. Se eu fosse cineasta, a graça se perderia como a tinta no papel é sugada. Já fizeram tanto tudo. Outros nem fazem mais que abrir os olhos só pra ver a roda girar. Eu precisava anotar as coisas que te digo. Essas coisas pra você não esquecer mais. Eu emburreci. Só falta perder a memória e esquecer o definição dos verbos, porque sentido, alguns não fazem mais.
Ser sal dá nisso…
Asas e raízes eu tenho, um grande amor eu já tive. Hoje só me falta coragem pra vender minha arte por aí – e é mais fácil desprender-me de um rim.
Depois de um ano.
“Eu tenho um globo. Tenho um globo desses que refletem luzes e ilusões ao menos na noite de sábado, mas ontem foi sexta-feira e ilusão nenhuma refletiu. Quando você tem 21 anos, não tem carreira começada, nem trabalho, ou um deus pra pedir perdão ou algum diabo para te puxar os pés enquanto dorme, você fecha os olhos e apenas desmaia; precisa somente de uma mão te puxando pela tua outra, direita ou esquerda, tanto faz. É sempre uma experiência nova dançar, seja na pista, de frente ao espelho ou na vida. Que seja! É daí que você pede para ficar e eu já estou com um pé fora da porta.
Há uma canção que me faz ter vontade de chorar, mas estou seca agora. Chorei bêbada pela manhã reclamando da ausência da mãe. E no momento tenho uma cova para ser fechada em minha cara mal lavada, com toda essa maquiagem derretida. Estou desfigurada. Não é o calor que faz aqui. O caminho para o inferno é o mesmo caminho que faço para a cama, e, esta está desarrumada agora.
O ninho dos ratos parece mais seguro hoje. E bem que eu precisava ter AQUELE meu estômago de volta, mas nem pulmões têm mais. Câncer. Ai! Como me dói. Se respirar ainda, é milagre. É daí que percebo que meu heroísmo tem prazo de validade. Minhas promessas também.”
Depois de um ano, o que mudou? O corte de cabelo e nada mais.
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